sábado, 23 de junho de 2012

Bué, bué, bué de longe…




Desde há uns anos que tenho a impressão que o trabalho de traduzir, em muitas das obras literárias, não tem sido entregue propriamente a uma elite de tradutores, mas a quem vai dando alguma conta do recado, um bocado do género de quem não tem cão caça com gato, e não sei se, cada vez mais, excessivamente condicionados pela cultura anglo-saxónica. 

Felizmente vão aparecendo traduções -nos antípodas da mediania senão mesmo da mediocridade, que a meu ver se estão a instalar nas editoras de maior popularidade- como a de Frederico Lourenço que, após um grande trabalho de pesquisa, tornou mais acessível e ao mesmo tempo mais fiel ao texto, a leitura desses dois grandes livros mágicos e fascinantes a Odisseia e a Ilíada de Homero (1).

Embora não seja da minha área específica de conhecimento mas, como leitor, e freguês das livrarias, com hábitos de leitura desde tenra idade, tenho que dar conta das formas mais grosseiras e evidentes do laxismo e da falta de rigor ou de competências mais adequadas, de quem traduz.

Este texto que se segue é uma compilação de cartas escritas às editoras Bertrand, Quetzal e Gradiva e ao Inimigo Público. O leitmotiv será o dos sistemas de pesos e medidas à volta do qual outras questões e motivos são abordados. 
Houve algumas alterações no conteúdo e na forma mas o essencial mantém-se.

Tive respostas da Quetzal pelo responsável da Comunicação e Imprensa, Bruno Vieira Amaral, que vai contactar a tradutora, e, literalmente, pela caneta do editor da Gradiva, Guilherme Valente, aliás numa carta personalizada, muito humana, cheia de um sentido de humor e de uma mordacidade desarmantes. Da Gradiva viria a receber uma segunda carta da responsável mais directa pela edição em questão, que justificava as opções abaixo descritas pela tentativa de se enquadrarem mais na época antiga em que a história, aliás do género Fantástico e juvenil, se desenvolve. Tranquiliza-me dizendo que é uma grande defensora da nossa cultura.

Da Quetzal li o Leão Africano (2), do escritor Amin Maalouf, libanês de nascimento, mas que vive em França desde 1976, e é em francês que escreve os seus livros. Aliás foi escolhido, recentemente, pela Academia Francesa, para fazer parte dela como seu membro de pleno direito.

Contudo, a tradução portuguesa do Léon L’African, a cargo de Maria da Graça Morais Sarmento, brinda-nos, sempre que há referência a distâncias, com milhas ao invés de quilómetros, unidade de medida do sistema métrico criado em França.

Ora quando um leitor minimamente erudito depara com a tradução de um romance francês que nos dá as distâncias em milhas, só podemos concluir que a tradutora é (mais) entendida no inglês e terá feito a tradução a partir da versão inglesa daquela obra. 

Depois não se lembrou de fazer a conversão para o sistema métrico, que por sinal também é o nosso, ou não esteve para isso, ou teve preguiça de ir às tabelas de conversão.

De qualquer forma muitos leitores devem ter ficado sem a noção das distâncias descritas, só o trabalho de ir às tabelas, e este tipo de tradução não respeita nem a cultura francesa nem a nossa.

No livro de Stephen King, A Maldição, da Bertrand, a páginas tantas dão-nos o peso do personagem principal em libras, mais concretamente cento e setenta e quatro libras. 

Eu pergunto se o tradutor usa, no seu dia-a-dia, no nosso país, esse sistema de pesos. Não o estou a ver a pedir no talho 10 libras de carne, ou no consultório do médico a dizer que emagreceu sete libras. Nem ponho a hipótese de tal coisa lhe ter alguma vez passado pela cabeça.

E duvido que a quase totalidade dos leitores saiba fazer a conversão automática de libras para quilos (portugueses, latinos e universais). O mais provável é que a maioria dos leitores não se preocupe muito e passe à frente. 

Uma tradução completa e rigorosa também deve respeitar os diferentes sistemas de pesos e medidas, “traduzindo”, fazendo a conversão do sistema anglo -saxónico para os nossos sistemas, portugueses e (mais) universais.  
      
Também na Marca das Runas, da Gradiva, com tradução de Isabel Fraga, destaca-se, a meu ver, o uso, sem complacências, da terminologia inglesa de jardas, pés e pés cúbicos e milhas, sem tradução (conversão) para o nosso sistema métrico, nem em rodapé. 

Apesar de toda a influência anglo-americana que nos é veiculada diariamente desde as muitas designações, em que, no quotidiano, se prefere o inglês em detrimento do português, em diferentes áreas de actividades técnicas, cientificas, comerciais, de lazer e desportivas, na orgânica de hotéis e empresas, até ao monopólio de séries de televisão e de filmes, ninguém vai dizer, nem a tradutora certamente, que faltam duas milhas para terminar a viagem ou que aquela sala tem tantos pés (ou que esta caixa tem os pés cúbicos suficientes).


A não ser que haja uma estratégia tácita de quem traduz e dos ministérios governamentais, aqueles que mudaram, no turismo, Algarve para Allgarve, para depois nos habituarmos a poder dizer aos turistas ingleses, perdão, ingleses turistas, as distâncias em milhas. 

De qualquer forma uma coisa são expressões híbridas, mas com mais ou menos o mesmo significado, no português corrente, do que se pretende dizer, outra coisa será esta, a meu ver, “falsa” tradução em que os termos não têm uma correspondência directa, prática, automática, no que respeita ao português falado, no nosso quotidiano.

Provavelmente foi só comodismo em converter milhas em quilómetros, ou será que traduzir do inglês para o português não inclui a conversão dos respectivos sistemas de medição?
Se há vontade da tradutora em nos ir familiarizando, aos bocadinhos, com a imperial língua, podia pôr, em rodapé ou no fim do (s) livro(s), tabelas de correspondência.          
                                                                   
Por outro lado, no acto de traduzir, tenho a percepção no geral e neste livro em particular, que, ainda sob a influência anglo saxónica, gradualmente, o adjectivo passou a ser mais importante que o substantivo, precedendo-o quase sempre, senão sempre, como se estivéssemos a imitar um inglês a falar (o que fazíamos como caricatura). 

Também encontramos outro tipo de transcrição no original, sem tradução, nem em rodapé. No livro A Filha de Hitler, da Bertrand, passado para o português por Patrícia Xavier, encontrei muitas frases e excertos de libretos em alemão, sem a respectiva tradução. 

Dos libretos, das óperas do Wagner, ainda se consegue a tradução em inglês ou francês, para quem tenha boas edições discográficas daquelas óperas. Agora de outras frases, do alemão (e do francês), só se eu me substituir à tradutora, no trabalho de passar para a nossa língua latina, ibérica e lusa, as frases em germânico.
                   
É possível que tenham os leitores em tal alta conta, em que o domínio de línguas estrangeiras, e a conversão mental automática de pés e milhas, para o nosso sistema métrico, seja uma realidade já comum a tais leitores. Tal não acontece comigo e preciso de tabelas, dicionários ou da ajuda de quem sabe alemão, o que não é fácil, o que certamente acontecerá com a imensa maioria dos vossos leitores.

                 Independentemente desta tradução, que, no geral, será rigorosa, parece haver uma aceitação pública a arquétipos de maior laxismo, ignorância e conformismo em relação à arte de traduzir, falta de cultura geral do público, nos meios estudantis donde sairão os novos tradutores e dos novos licenciados.  

Isto torna-se muito mais visível, não poucas vezes de forma bem grosseira, na legendagem de filmes em DVD ou no Cinema, que se chega a duvidar das habilitações de quem traduz.

Ainda sobre a transcrição simples de línguas estrangeiras, no suplemento do Público, o Inimigo Público, pelo menos até 2008, as legendas ou os balões dos desenhos satíricos, da imprensa internacional, não eram traduzidos, inclusive, e se a memória não me falha, do alemão. 

Pode, também aqui considerar-se a alta consideração que o I.P. tem pelos seus leitores, gente instruída o suficiente para não precisar de traduções.    



               
Mas concedam-nos a liberdade de não sermos obrigados a saber tanto de inglês, já nem falo do alemão ou do holandês, como da nossa língua. Senão fica o leitor com a tarefa de traduzir, para quem tiver pachorra para tal, claro.

Não voltei a ver a falta de legendas ou de balões em português, desses desenhos satíricos, e, aliás, nem, tão pouco, os desenhos.

       Contudo a má tradução ou a falta dela revelam-se de forma muito mais evidente e primária nas salas de cinema e na televisão onde os exemplos mais grosseiros pontificam, launched por lanche, caracterizar a agressão com um veneno como…virulenta, etc, etc.

No Cinema, como no filme recente Paranoid Park, de Gus Van Saint, já se viu Introduzir nas legendas, à viva força, termos em calão, predominantemente de origem juvenil e alfacinha, porque as personagens são adolescentes, quando, na língua original, o inglês, apesar de estarem na idade do bué e do fixe, se”esqueceram” de usar o calão. 
O tradutor, pessoa moderna, certamente “fixe”, vê-se na obrigação de corrigir e actualizar um discurso demasiado clássico e correcto para adolescentes dos nossos dias.


No (primeiro) filme Shrek, destaca-se logo no ínicio a exemplar criatividade, a “gracinha” do tradutor(a) ao passar de far, far, far away para os ridículos balidos, bué,bué, bué de longe, anulando o efeito de humor pretendido que seria contrapor ao classicismo e ao encanto daquela expressão tradicional, dos contos de fadas, o que se irá seguir num guião competente que não foi feito propriamente em cima do joelho.

Grosso modo penso não andar muito longe da verdade ao dizer que o retrato-tipo de um tradutor, não só de legendas de filmes e séries mas de muita literatura, será a de um individuo recém- licenciado, ou nem isso, lisboeta, nem sempre rigoroso, e muito preso à gíria alfacinha, de cariz sobretudo juvenil, “tipo bué”, mesmo, pelos vistos, que no original encontremos uma terminologia clássica.

Gostaria só de saber se as encomendas a quem traduz estarão a cargo de quem tem cada vez mais em linha de conta o primado económico ou social (família e amigos) sobre o curriculum, ou seja mão-de obra menos experiente e menos qualificada, talvez mais familiar, mais em conta, ou se realmente o recrutamento é feito entre os de melhor curriculum. 
 
Muito provavelmente receio que a resposta esteja na primeira hipótese, pois não teria lógica nenhuma serem os mais qualificados os actuais responsáveis pelas, quantas vezes, legendas hilariantes (podia-se fazer uma antologia volumosa), e pelas traduções pouco cuidadas na literatura.

Apesar de tudo Deus nos livre dos filmes dobrados, essa praga da qual, felizmente, temos sido poupados. Saber que há espectadores franceses e espanhóis que nunca ouviram a voz de um Vincent Price, de um Humphrey Bogart, de um Mastroianni, de uma Sofia Loren, de uma Julie Andrews, o alemão de uma Marlene Dietrich, o timbre de um russo, o acento tonal dos japoneses em natural sintonia com as suas atitudes e gestos, faz-me ter mais simpatia pelo nosso país.

Numa cena penso que do Decameron de Pasolini, que infelizmente vi dobrado em inglês, há um casal de jovens italianos que discute com grande vivacidade de gestos e expressões faciais, em grande contraste com a fleuma, a lentidão, a contenção o registo baixo e monocórdico do diálogo entre o casal que os dobra.





Nunca conheceremos verdadeiramente um actor se não lhe conhecermos a voz, não desfrutaremos completamente da cultura de um país ou de uma região se nunca ouvirmos as sonoridades da língua local.

(1)Livros Cotovia

(2)Já agora como leão em francês é lion e não Léon, que é um nome próprio, de pessoa, claro, só se pode tratar mesmo de uma tradução livre, para ter um título mais sonante em português, ou então foi distracção e falta de rigor. O título correcto em português seria Léon o Africano.



domingo, 17 de junho de 2012

A Cozinha Regional de Lamego, onde pára ela.




Há meses vi noticiada, no Jornal do Douro, a criação de uma nova confraria, a Confraria Gastronómica de Lamego. 

Para uma cidade que está longe de ser uma referência no que respeita à oferta, que aliás nem se avista, de pratos originais e tradicionais locais, podemos pensar, com aquela notícia, num acontecimento bem-vindo, que poderá vir a ser um catalizador para o renascimento gastronómico Lamecense. 

Desde que esta confraria seja mais do que um pretexto para feiras e patuscadas cerimoniais.

A Europa meridional e do sul, por influência das civilizações romana, e árabe, é de longe a região, muito à custa da Itália e da França, do mundo ocidental, com maior variedade, riqueza e imaginação, no que respeita à arte da culinária. 

E o concelho de Lamego também deu o seu contributo, ao longo dos séculos, para além das bolas típicas de bacalhau, de carne e de presunto, mas é preciso saber onde as comprar, e dos fumeiros e enchidos menos típicos. 

É verdade, por muito que não pareça, aqui também há pratos regionais.

Assim nós podemos encontrar nos livros de pesquisa gastronómica, não nos restaurantes, uns caldos de perdiz, de nabiças e de papas, uma açorda do Natal, cevadinha, arroz de couve, arroz de polvo, um bacalhau assado nas brasas, um bacalhau assado no forno e um bacalhau com molho de vilão, polvo frito, alheiras com batatas e grelos, cabrito assado no forno, carne em vinha de alhos, coelho assado no tacho, coelho com ervilhas, milhos com entrecosto, rojões (à moda de Lalim), um coelho à moda de Lamego, umas trutas de escabeche, um bolo de amêndoa e um outro de noz, quadrados de amêndoa, aletria (de Lamego), farinha de pau doce, pudim de laranja, grades, bolos amarelos, bolos-podres, pastéis de Lamego, mulatos, filhós (à moda de Lamego), fritos de leite.

E obviamente os vinhos do Douro, nesta cidade que foi o berço do Vinho do Porto, conhecido originalmente como Vinho Cheirante de Lamego. Não esquecendo os belíssimos brancos da zona do Távora-Varosa.

Sendo o Douro a região agrícola mais lucrativa do país e do noroeste da península, e que, desde há anos, tem ainda criado condições de transporte fluvial e de alojamento para usufruto de um número crescente de turistas, e sendo Lamego ponto de passagem obrigatório nas rotas do vinho, a visita só pode ficar social e culturalmente incompleta quando nas ementas dos restaurantes não se vislumbra qualquer convite à descoberta dos sabores seculares da cozinha lamecense.





sexta-feira, 1 de junho de 2012

Você…é na estrebaria!



Quando um locutor entrevista um ministro ou alguma personalidade política de relevo, trata-o, em regra, por senhor ministro senhor doutor, senhor engenheiro (mesmo os de cursos manhosos e com currículos aldrabados), senhor deputado, ou quando muito por senhor(a).

Inversamente sua excelência, o entrevistado, como recentemente o cientista e progressista Alexandre Quintanilha, na SIC, está à vontade para tratar sobranceiramente o jornalista pelo pronome você com a certeza que o entrevistador não se atreverá a dirigir-se a ele sem ser como Sr. Professor.

Numa entrevista a dois ex-grão mestres da maçonaria, o Dr. António Arnaut, e o Dr. António Reis, o primeiro, que passou a maior parte do programa sorridente e afável, a páginas tantas, e num momento em que se impacientou mais com a locutora e a eventual inpertinência das suas perguntas-comentário, carregou bem por 2 vezes naquele pronome. O “você” aqui foi usado de forma isolada, nitidamente como sinal de descontentamento com as perguntas da jornalista.

Nos debates pré eleitorais entre políticos não me lembro de ver os participantes tratarem-se entre si sem ser pelo título académico, diplomático ou ministerial*. Quando muito um “olhe que não, olhe que não”.
Já os apresentadores de concursos, como que assumindo uma certa hierarquia, tratam com muita frequência os concorrentes por você. Aliás, por vezes, repetem à exaustão, em rajada, você isto, você aquilo, você aqueloutro. De certeza que em presença de uma alta individualidade, por mais medíocre e banal que fosse, tais apresentadores não se atreveriam a usar tal gíria.

Curiosamente, mas afinal respeitando a hierarquia, nenhum dos concorrentes se atreve a retribuir tratando os apresentadores também por aquele pronome.

Por outro lado é frequente o personagem dominante usar e abusar do você com o interlocutor como é o caso do psiquiatra mediático, Júlio Machado Vaz, que chega a disparar o dito pronome, de forma seca, bem carregada, bem sublinhado, bem acentuado, subindo uns significativos decibéis quando “atira” às pessoas aquele prenome, pelo menos uma vez por frase, quer seja com a psicóloga com quem faz equipa no rádio, quer seja na Praça da Alegria com Jorge Gabriel e Sónia Araújo. Nem a psicóloga nem aqueles apresentadores se atreveriam a retribuir o tratamento. Já com outros interlocutores, menos importantes para os entrevistadores é provável que passasse a ser o inverso.**

Provavelmente encontraremos em Lisboa, a difusão soberana, o epicentro do uso e abuso deste tratamento hierárquico, pois na verdade estamos colonizados via TV e via legendas de cinema, pela gíria, pela terminologia alfacinhas.

No Porto, certa vez, na Escola Superior Artística do Porto, uma aluna jovem lembrou-se de tratar um dos empregados, o responsável do laboratório de fotografia daquela escola, por você. Ouviu em resposta um tonitroante “você…é na estrebaria!”

De certa forma, na cultura portuguesa, há um distanciamento, por cima, assumido, de quem recorre a este termo, e ao mesmo tempo pode tratar-se de uma familiaridade imposta, com a prepotência de quem sabe que o destinatário não vai dar notícia do seu desconforto, mesmo que o sinta, com tal tratamento, como é o caso dos concursos televisivos, ou de quem, no geral, está seguro de ter a faca e o queijo na mão.

Ou ainda por snobismo, ou para criar distanciamento, ou por desprezo, azedume e crispação, ou por simples ignorância.

O destinatário mesmo que ache abusivo, ou de se sentir desconfortável por ser assim tratado, pode não reclamar por receio de causar atritos, ou esboça apenas um sorriso amarelo para que o canalizador não deixe a obra a meio.

Mas era o pronome que a senhora viscondessa usa(va) com a criadagem – ó Casimira você não me volte a deitar funcho na vitela - ou de um pai zangado com a filha, quando lhe passa um ralhete -você ouça o que eu lhe digo, ou estuda ou não vai longe- e, talvez, habitual no ambiente familiar de algum novo riquismo, ou com pretensões a isso.

E, pelos vistos, não haverá uma diferença regional assim tão grande, na maneira como se encara este termo, entre o Porto e Lisboa, como se constata na distribuição dos “vocês”, na televisão lisboeta, dependendo de os destinatários serem considerados mais ou menos importantes.

E há de facto uma hierarquia do você, pois o Sr. Dr. Júlio Machado Vaz, ou o senhor apresentador televisivo de concursos, José Carlos Malato, estão à vontade para disparar os vocês até à exaustão que podem, sobretudo o primeiro, ficarem a olhar desafiadoramente os interlocutores como que a dizer-lhes: vá vê lá se te atreves a tratar-me também assim.

A não ser que talvez um picheleiro que por acaso não esteja a par do mediatismo daquele psiquiatra famoso e seja chamado a acudir-lhe, por algum contratempo que envolva canalizações e torneiras, o brinde com muitos vocês, em vez de o senhor doutor ou simplesmente o senhor. Afinal pode dar-se a esse luxo pois é ele quem tem no momento a faca e o queijo na mão. E sabe disso.

Ressalvam-se, claro, os brasileiros, que trocaram o tu por você, por questões de independência, de feitio ou outras.








* Excepto se quando se juntam na posição de comentadores e num ambiente muito encrespado, onde querem frisar o distanciamento com o opositor.
** Nos últimos programas da Praça de Alegria, que pude ver, o Psiquiatra já tratava os animadores pela segunda pessoa do singular.




PS. Se na etimologia desta palavra se encontra uma expressão de grande deferência no” vossa mercê”, que depois evoluiu para vosmecê e você, nos dias que correm, e exceptuando o que é costume em muitas aldeias, é evidente que o seu sentido actual está nos antípodas, ou quase, do grande respeito, senão da afirmação de vassalagem, que aquele tratamento rep

sábado, 5 de maio de 2012

Nós trazemos o ruído!




Certo dia encontrei num disco de música thecno ou house (ou congénere) o título sugestivo de “nós trazemos o ruído”, we bring the noise no original.

O termo noise, comumente, significa, em inglês, qualquer som indesejável, significado que ganha todo o sentido nas casas onde entra este tipo de disco pelas mãos de um adolescente.

Para assegurar o direito e a liberdade de que quem quer ter o direito de opção ou simplesmente não se dá bem com aquele tipo de sonoridades, seja house, disco ou outra, com a agressividade de uma discoteca (onde aquele ruído é multiplicado mil vezes), ou mesmo esporadicamente quando trazem a discoteca para o exterior, há legislação nacional nesse sentido, com restrições bem -vindas pelas comunidades.

Tais sonoridades são produzidas em sistemas de som, a cargo de discos jokeys (dj’s), em que predomina normalmente um continuum de quilómetros e quilómetros de batida sincopada que se pode tornar exasperante.

Remetidos e confinados ao espaço hermeticamente fechado das discotecas, pelas leis que tentam garantir o direito ao repouso dos cidadãos, estes dj’s e seus apaniguados uma vez por outra, quando tal se propícia, “vingam-se” trazendo a aparelhagem para o meio da rua, com a qual levam a cada cama a cada travesseiro, dos que dormem ou se preparam para o fazer, o pum pum pum, bem martelado, multiplicando todos os décibeis que conseguem arrancar do sistema.

Tal como nas técnicas de tortura, por vezes este martelar diminui de intensidade criando falsas esperanças, sobretudo quando coincide com as horas (2h-3h-4h-5h) para, logo a seguir, voltarem à carga com um pum pum pum ainda mais intenso.

Assim, a partir das primeiras horas da madrugada, vá, toda a gente acordada.

A discoteca pum pum pum veio para a rua, trazer aos lares que repousavam ruído a alto som, repetitivo e persistente até ao sol nascer. Se não gostam de ir às discotecas então as discotecas vão até vós, sem terem de sair do leito.

Certamente se a Sr.ª Primeira Ministra da Alemanha, Angela Merckel, tivesse o infortúnio de pernoitar em Lamego na noite e madrugada de 22 de Maio, encontraria alguma explicação para o facto de Portugal estar a ser um mau parceiro na comunidade do Euro.

E se por cá pernoitassem também, o francês Nicolas Sarkozy, ou o americano Barack Obama, ambos fugiriam, para os seus países, em que tal atropelo à cidadania seria impensável.

Em Portugal onde já há o receio de civismo poder ser confundido com servilismo, onde as pessoas parecem querer ignorar que quando não há civismo acabamos por ser muito mais prejudicados que beneficiados, autorizar aos jovens estudantes uma “festa” deste teor é uma péssima lição.

Na prática impor aos outros, nas suas próprias casas, noites de vigília e de tortura sonora, sob o beneplácito das autoridades locais.

Gente que após um dia de trabalho precisa de um sono reparador e merecido, que tenta na privacidade do seu lar fugir ao stress. Doentes cardíacos e outra gente doente e acamada. Pessoas que precisam de silêncio e repouso para tratar das suas cefaleias, náuseas ou mesmo depressões.

Azarito, tudo acordado! Sem poupar crianças nem idosos. Ou então tomem Valium®. Que se preparem para sentir quase ininterruptamente, o resultado sonoro das geniais misturas dos dj’s mas donde sobresai um martelar repetitivo, dentro das vossas quatro paredes, nas vossas travesseiras, até ao raiar do sol.
Há estudos que revelam que em Portugal dormimos poucas horas, relativamente a outros países europeus e essa falta de horas de sono interfere com o rendimento na escola e no trabalho para além de aspectos diversos ligados à saúde física e mental.

E há palestras, mesas redondas, artigos de jornal, programas de televisão, reportagens, documentários, especialistas a falar na televisão, sobre este tema.

A resposta dos responsáveis, e com responsabilidades acrescidas visto que se trata de uma festa para jovens estudantes em formação, está à vista.

Se nas mil e uma licenciaturas que proliferam por todo este Portugal profundo não parece haver, na organização da queima das fitas, imaginação para mais do que trazerem discotecas para a rua, ou concertos que vivem mais da potência das colunas de som do que da qualidade dos espectáculos e dos festejos no geral, caberia aos responsáveis impor horários, e/ou locais de forma a ser salvaguardado o bem estar dos lares.

Não sei se o Sr. Presidente da Câmara é assíduo frequentador das discotecas pum pum pum. ou se tem residência perto do epicentro sonoro destes festejos abala tímpanos. Se tem não pode negar o que aqui se escreveu.

Admito que por uma questão de falta de formação (ou informação) e por ingenuidade, pais e familiares mais velhos e muita da população em geral, e os próprios protagonistas, encarem este destempero acústico com resignação e conformismo, com medo de parecerem desactualizados ou de politicamente incorrectos. Destempero acústico em que quantos mais décibeis debitarem as colunas de som, mais actualizado e avançado é o espectáculo, porque agora é assim, é moderno, é isto que se deve usar “lá fora”, os miúdos, que até estão em cursos superiores, lá sabem.



De qualquer forma penso que a generalidade dos habitantes que residem nas imediações da queima das fitas prefere ter a liberdade de frequentar ou não as discotecas, a ter imposto, janelas dentro, e nas horas nocturnas de repouso, o martelar sem fim debitado por woffers potentes, proclamando: we bring the noise!








quinta-feira, 12 de abril de 2012

CANJA


No tempo do Vasco da Gama não havia massinhas (estrelinhas, pevides, letras ou outras).

Uma das receitas mais antigas, preconizadas e usadas pelos pediatras em Portugal, particularmente nas situações de gastroenterite, é o caldo de arroz (pode também levar cenoura) e sal, que pode ser com frango, tradicionalmente conhecido por canja.

Fiquei algo surpreendido quando me disseram, certo dia, que a canja foi “sempre” feita com massinhas, e, uns tempos depois, num restaurante de Tabuaço, serviram-me uma “canja” de vitela, com as ditas mais grão-de- bico à mistura.

Quer em bibliografia autorizada sobre a matéria quer como resultado de pesquisa na Internet a este respeito, podemos ver que a canja é uma sopa típica portuguesa feita à base de arroz, sendo a sua principal variante a canja de galinha.

Levam-nos ainda às suas origens na China onde é chamada Congee, sendo a variante mais tradicional o congee de galinha, idêntico à canja portuguesa, e à Índia, do Vasco da Gama, onde encontramos a palavra Kanji, para designar água com arroz.

Para além das nossas tradições locais e familiares num contexto de experiência e cultura regionais há um saber universal e etimológico, no mundo da gastronomia, que deveria ser respeitado, se quisermos falar com rigor.

Para mim canja é, e foi sempre desde que me conheço, sinónimo de um caldo de arroz, por mais que me mostrem caldos de galinha e até de vitela com massas, batata, grão- de- bico e o que se quiser, e a quem continuam a chamar canja. Substitui-se o ingrediente que afinal deu nome à sopa, desde há séculos, mas a mesma designação mantém-se.

Ora não é preciso grande erudição para perceber que as massinhas, de origem industrial, usualmente usadas na sopa, são de introdução muito mais recente, com aumento da sua implantação só a partir de meados do século XX.

O milenar arroz, e o caldo, provavelmente também mais que secular, feito com aquele cereal, já faziam parte da nossa gastronomia muitos séculos antes do advento das massinhas industriais.

Se há um caldo a que se chama canja, ao arroz e só ao arroz deve o nome. Neste sentido pensar em canja sem arroz é como pensar numa feijoada sem feijão.

Mas não é só por interesse académico que devemos ser fiéis à etimologia gastronómica.

Na doença, em particular nas gastroenterites e nos estados gripais, é comum da Ásia, às Américas o recurso popular à sopa de galinha, e, recentemente, há notícia de estudos científicos que corroboram as propriedades terapêuticas daquela sopa, ao estimular a imunidade, as defesas do organismo.

O arroz, por seu turno, é dos alimentos mais inócuos, mas ao mesmo tempo uma fonte energética importante, de hidratos de carbono.

Assim se juntam a fácil digestibilidade e um bom aporte proteico calórico e hídrico no que é uma receita universal, para os mais combalidos.

De qualquer forma as massas, obviamente, não devem ser usadas antes dos 7-8 meses de vida, ao contrário do arroz que pode ser introduzido na dieta do lactente, já aos 4 meses. O que só abona em favor deste cereal em termos de digestibilidade.

Mas mesmo depois daquele grupo etário o arroz, em situações de maior fragilidade orgânica continua a ser mais indicado, pois é de mais fácil digestão além de ser objectivamente obstipante (fazendo parte, com o conjunto do caldo, de um bom hidratante), útil no caso das diarreias, o que não acontece com as massas.

PS: Também, mas neste caso de forma generalizada, se chama, em Portugal, chá de cidreira a uma infusão da mesma e onde não existe qualquer vestígio da plantinha a que no dicionário deram o nome universal de chá.


Mas uma coisa é dar uma infusão de chá propriamente dito outra é dar uma infusão de cidreira, de camomila ou de limão. É por isso que o rigor não é só para enfeitar.

sábado, 17 de março de 2012

Proibido Fotografar!


Mais papistas que o papa.


Um fotógrafo amador, e falo por experiência própria, se viajar pelos países do Mediterrâneo, europeus, magrebinos e do médio oriente, pode trazer consigo, além dos inevitáveis postais, multimédia e livros turísticos, uma bela colecção de fotografias, segundo a sua visão pessoal e como fruto da alegria de fotografar.


E é com entusiasmo que difunde as imagens, por exemplo em sessões de diapositivos, junto à família e amigos, senão a uma comunidade mais alargada, dos locais que visitou, o que também ajuda a divulgar e a despertar o interesse por esses destinos turísticos.


Esse acervo fotográfico que pode contemplar a Acrópole e o respectivo museu, em Atenas, o museu de Atenas, a Mesquita Azul e a Igreja de Santa Sofia em Istambul, o museu do Cairo, Chartres, os Castelos do Loire, Carcassone, o Louvre, a mesquita de Córdoba, o Alhambra, o museu de Tunes, a Sagrada Família em Barcelona, o museu de Estrasburgo, o Teatro Museu Salvador Dali, a catedral de Albi, o museu de Sevillha, o Vaticano e quase todo o seu museu, a Pinacoteca de Munique, a Eurodisney, o Futuroscópio. . .


Mas... dificilmente, terá continuidade quando entramos em Portugal, particularmente na estação de S. Bento, com os seus painéis de azulejos, na casa-museu do fotógrafo (um parodoxo) Carlos Relvas, no Palácio de Vila Viçosa, em exposições de fotografia (outro grande parodoxo) no Centro Cultural de Belém. . .


Ao interditar o recurso, à máquina fotográfica, pelos turistas e fotógrafos amadores, estes museus e monumentos, privam aqueles, de uma legítima actividade criativa e recreativa.


Obviamente, este tipo de atitudes, para os amantes da fotografia, não deixa muitas saudades, nem cataliza entusiasmos.


Será por medo que as pessoas, depois, não comprem livros ou postais? Nada mais falso pois quem é poupado nas fotografias também é poupado noutras imagens, ao invés de quem fotografa, que, como amante e entusiasta das imagens, que é, não dispensa as ofertas turísticas e culturais a esse nível.
Será com medo que danifiquem as obras de arte? Se mesmo com o uso de flash é discutível, sem aquele não se vislumbra qual o prejuízo.


Por uma questão de segurança? Basta aos mal- intencionados comprarem um catálogo ou consultar livros mais ou menos pormenorizados para ter muita informação documental, complementar, sobre os acervos ou a arquitectura, após a visita ao eventual alvo.


A meu ver uma medida mesquinha, caprichosa e gratuita.


Se o resto dos monumentos, museus, exposições, por esse mundo fora, fosse interdito aos fotógrafos, a História dos grandes nomes da fotografia ficaria extremamente empobrecida. Felizmente que são raros os casos de interdição.


PS. Uma sugestão: Porque não cobrar uma taxa, 50 cêntimos a 1 euro, p. ex., a quem quiser tirar fotografias, à semelhança do que acontece, pontualmente, em um ou outro museu ou
monumento, em alguns países? Sempre seria um acréscimo de divisas sem qualquer custo adicional para esses museus e monumentos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Estamos em Portugal, ninguém leva a mal!



Há dias, numa entrevista radiofónica , um inglês, casado com uma portuguesa e residente no nosso país, fazia notar que uma das diferenças  em que mais tinha dificuldade em se adaptar, entre Portugal e a Inglaterra, um dos países com a taxa mais baixa de mortalidade nas estradas, seria o desleixo com que o condutor português conduz e estaciona.

Instigado pela mulher a “desenrascar-se”, numa ocasião em que havia dificuldades de estacionamento, ele levantou problemas de consciência, de cidadania, em estacionar o carro de forma irregular, já não me lembro se em cima do passeio, se junto a um cruzamento, se em via estreita, ao que os familiares lusitanos, que com ele viajavam, em uníssono soltaram um: não te preocupes estás em Portugal!

Podíamos pensar nas motos de alta cilindrada, que passam a troar os ares, impunemente com velocidades (inimagináveis no resto da Europa do Euro) e agressividade sonora interditos aos veículos de 4 rodas, nos potenciais Kamikaze rodoviários das estradas com viaturas coladas a circular a 150 Km/h e mais, na economia paralela (fuga aos impostos e à segurança social, falsos recibos verdes, fuga de capitais), e na gestão, nem sempre muito rigorosa, de muitas autarquias.



  Em Lamego existe um parque de estacionamento sui generis, brilhantemente improvisado pelos autarcas responsáveis, mas que não respeita muito o património urbano. 

Todo um passeio de uma alameda arborizada, junto à Câmara está preenchido de viaturas estacionadas, que não ficam sujeitas a multa pois resolveram a questão colocando as placas, de forma completamente insuspeita, de estacionamento privado do Munícipio. 

Entretanto muitas pessoas, desde crianças e mães a levar carrinhos de bebé, a velhinhos com bengala, insistem em usar aquele passeio tendo de se descolar, quase todo o percurso, a descer e a subir do rebordo para a sarjeta, e da sarjeta par o rebordo. 

A Câmara Municipal devia nas extremidades do ex-passeio colocar setinhas a recomendar o uso só do passeio oposto. Ao fim e ao cabo, naquela alameda, deixaram de haver dois passeios visto um deles ser agora um parque de estacionamento.

Mas em Portugal ninguém leva a mal.

Contudo, esta aparente tolerância, esta cumplicidade transversal à nossa sociedade, acaba por encobrir o que no fundo significa, o que no fundo gera: uma falta de confiança generalizada nas instituições e no outro.

Isso foi bem evidente no referendo à regionalização.

O lógico era que as pessoas votassem sim para que as regiões pudessem ter mais autonomia na gestão das suas mais valias, e responder mais adequadamente às necessidades da população, por um melhor conhecimento, por uma convivência quotidiana e pessoal com essas necessidades.

Teoricamente a regionalização teria tudo a favor, por exemplo numa região como a do Douro, a região agrícola mais auto-suficiente do país e com um turismo que tem vindo a crescer exponencialmente. 

Quem conhece melhor os problemas de uma região, quem os vive no terreno, no dia -a -dia, à partida é quem estaria mais apto a uma gestão eficaz dos recursos disponíveis (de origem fiscal, da União Europeia ou outros), mais do que aquele que tem a sua vida estabelecida em Lisboa e é sobretudo com a realidade e as solicitações da capital com quem tem de viver no seu quotidiano.

Mas, ao povo português quando lhe perguntaram se queria ser ele a assumir uma quota -parte maior nas responsabilidades do governo do país, votando sim à regionalização, de certa forma o povo viu-se ao espelho e disse não. 

Em Lisboa bem podem dizer que para lá do Marão mandam não os que lá estão mas  os que cá estão, na capital.

Os argumentos à mesa do café, a favor do não, de que eu me apercebi na altura, e que hoje ainda se ouvem, revelam falta de confiança dos locais nos conterrâneos e no poder autárquico e o certo é que a regionalização foi chumbada na maioria do país. 

Todo o orgulho regional desaparece inesperadamente.

Que razões as câmaras municipais e juntas de freguesia no geral, tem dado para essa desconfiança a ponto de os portugueses terem rejeitado a descentralização, é um assunto que mereceria um grande estudo antes de novo referendo.

Das 2 maiores cidades o Porto, com bons exemplos paradigmáticos de afirmação regional, foi uma das excepções e votou sim à regionalização, Lisboa apesar de ser na altura maioritariamente de esquerda (que defendia a regionalização) votou naturalmente não, pois quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte.

Houve na capital nortenha vozes importantes da sociedade dita civil em defesa da regionalização.

Mas o resto do país tirando, salvo erro, Évora e outra cidade provavelmente insular, não as acompanharam neste empenho, nesta paixão regional.

Em Portugal somos socialmente tolerantes, cúmplices e complacentes, com fugas aos impostos, desvarios rodoviários, comportamentos de má cidadania, pecadilhos institucionais mas que nos deixa, como povo, e no que é transversal a toda a sociedade portuguesa, seguramente com algum desconforto ligeiro e uma leve suspeita de com outra cultura social mais impregnada de responsabilidade cívica o País estaria agora bem mais tranquilo e confortável.