sábado, 5 de maio de 2012

Nós trazemos o ruído!




Certo dia encontrei num disco de música thecno ou house (ou congénere) o título sugestivo de “nós trazemos o ruído”, we bring the noise no original.

O termo noise, comumente, significa, em inglês, qualquer som indesejável, significado que ganha todo o sentido nas casas onde entra este tipo de disco pelas mãos de um adolescente.

Para assegurar o direito e a liberdade de que quem quer ter o direito de opção ou simplesmente não se dá bem com aquele tipo de sonoridades, seja house, disco ou outra, com a agressividade de uma discoteca (onde aquele ruído é multiplicado mil vezes), ou mesmo esporadicamente quando trazem a discoteca para o exterior, há legislação nacional nesse sentido, com restrições bem -vindas pelas comunidades.

Tais sonoridades são produzidas em sistemas de som, a cargo de discos jokeys (dj’s), em que predomina normalmente um continuum de quilómetros e quilómetros de batida sincopada que se pode tornar exasperante.

Remetidos e confinados ao espaço hermeticamente fechado das discotecas, pelas leis que tentam garantir o direito ao repouso dos cidadãos, estes dj’s e seus apaniguados uma vez por outra, quando tal se propícia, “vingam-se” trazendo a aparelhagem para o meio da rua, com a qual levam a cada cama a cada travesseiro, dos que dormem ou se preparam para o fazer, o pum pum pum, bem martelado, multiplicando todos os décibeis que conseguem arrancar do sistema.

Tal como nas técnicas de tortura, por vezes este martelar diminui de intensidade criando falsas esperanças, sobretudo quando coincide com as horas (2h-3h-4h-5h) para, logo a seguir, voltarem à carga com um pum pum pum ainda mais intenso.

Assim, a partir das primeiras horas da madrugada, vá, toda a gente acordada.

A discoteca pum pum pum veio para a rua, trazer aos lares que repousavam ruído a alto som, repetitivo e persistente até ao sol nascer. Se não gostam de ir às discotecas então as discotecas vão até vós, sem terem de sair do leito.

Certamente se a Sr.ª Primeira Ministra da Alemanha, Angela Merckel, tivesse o infortúnio de pernoitar em Lamego na noite e madrugada de 22 de Maio, encontraria alguma explicação para o facto de Portugal estar a ser um mau parceiro na comunidade do Euro.

E se por cá pernoitassem também, o francês Nicolas Sarkozy, ou o americano Barack Obama, ambos fugiriam, para os seus países, em que tal atropelo à cidadania seria impensável.

Em Portugal onde já há o receio de civismo poder ser confundido com servilismo, onde as pessoas parecem querer ignorar que quando não há civismo acabamos por ser muito mais prejudicados que beneficiados, autorizar aos jovens estudantes uma “festa” deste teor é uma péssima lição.

Na prática impor aos outros, nas suas próprias casas, noites de vigília e de tortura sonora, sob o beneplácito das autoridades locais.

Gente que após um dia de trabalho precisa de um sono reparador e merecido, que tenta na privacidade do seu lar fugir ao stress. Doentes cardíacos e outra gente doente e acamada. Pessoas que precisam de silêncio e repouso para tratar das suas cefaleias, náuseas ou mesmo depressões.

Azarito, tudo acordado! Sem poupar crianças nem idosos. Ou então tomem Valium®. Que se preparem para sentir quase ininterruptamente, o resultado sonoro das geniais misturas dos dj’s mas donde sobresai um martelar repetitivo, dentro das vossas quatro paredes, nas vossas travesseiras, até ao raiar do sol.
Há estudos que revelam que em Portugal dormimos poucas horas, relativamente a outros países europeus e essa falta de horas de sono interfere com o rendimento na escola e no trabalho para além de aspectos diversos ligados à saúde física e mental.

E há palestras, mesas redondas, artigos de jornal, programas de televisão, reportagens, documentários, especialistas a falar na televisão, sobre este tema.

A resposta dos responsáveis, e com responsabilidades acrescidas visto que se trata de uma festa para jovens estudantes em formação, está à vista.

Se nas mil e uma licenciaturas que proliferam por todo este Portugal profundo não parece haver, na organização da queima das fitas, imaginação para mais do que trazerem discotecas para a rua, ou concertos que vivem mais da potência das colunas de som do que da qualidade dos espectáculos e dos festejos no geral, caberia aos responsáveis impor horários, e/ou locais de forma a ser salvaguardado o bem estar dos lares.

Não sei se o Sr. Presidente da Câmara é assíduo frequentador das discotecas pum pum pum. ou se tem residência perto do epicentro sonoro destes festejos abala tímpanos. Se tem não pode negar o que aqui se escreveu.

Admito que por uma questão de falta de formação (ou informação) e por ingenuidade, pais e familiares mais velhos e muita da população em geral, e os próprios protagonistas, encarem este destempero acústico com resignação e conformismo, com medo de parecerem desactualizados ou de politicamente incorrectos. Destempero acústico em que quantos mais décibeis debitarem as colunas de som, mais actualizado e avançado é o espectáculo, porque agora é assim, é moderno, é isto que se deve usar “lá fora”, os miúdos, que até estão em cursos superiores, lá sabem.



De qualquer forma penso que a generalidade dos habitantes que residem nas imediações da queima das fitas prefere ter a liberdade de frequentar ou não as discotecas, a ter imposto, janelas dentro, e nas horas nocturnas de repouso, o martelar sem fim debitado por woffers potentes, proclamando: we bring the noise!








quinta-feira, 12 de abril de 2012

CANJA


No tempo do Vasco da Gama não havia massinhas (estrelinhas, pevides, letras ou outras).

Uma das receitas mais antigas, preconizadas e usadas pelos pediatras em Portugal, particularmente nas situações de gastroenterite, é o caldo de arroz (pode também levar cenoura) e sal, que pode ser com frango, tradicionalmente conhecido por canja.

Fiquei algo surpreendido quando me disseram, certo dia, que a canja foi “sempre” feita com massinhas, e, uns tempos depois, num restaurante de Tabuaço, serviram-me uma “canja” de vitela, com as ditas mais grão-de- bico à mistura.

Quer em bibliografia autorizada sobre a matéria quer como resultado de pesquisa na Internet a este respeito, podemos ver que a canja é uma sopa típica portuguesa feita à base de arroz, sendo a sua principal variante a canja de galinha.

Levam-nos ainda às suas origens na China onde é chamada Congee, sendo a variante mais tradicional o congee de galinha, idêntico à canja portuguesa, e à Índia, do Vasco da Gama, onde encontramos a palavra Kanji, para designar água com arroz.

Para além das nossas tradições locais e familiares num contexto de experiência e cultura regionais há um saber universal e etimológico, no mundo da gastronomia, que deveria ser respeitado, se quisermos falar com rigor.

Para mim canja é, e foi sempre desde que me conheço, sinónimo de um caldo de arroz, por mais que me mostrem caldos de galinha e até de vitela com massas, batata, grão- de- bico e o que se quiser, e a quem continuam a chamar canja. Substitui-se o ingrediente que afinal deu nome à sopa, desde há séculos, mas a mesma designação mantém-se.

Ora não é preciso grande erudição para perceber que as massinhas, de origem industrial, usualmente usadas na sopa, são de introdução muito mais recente, com aumento da sua implantação só a partir de meados do século XX.

O milenar arroz, e o caldo, provavelmente também mais que secular, feito com aquele cereal, já faziam parte da nossa gastronomia muitos séculos antes do advento das massinhas industriais.

Se há um caldo a que se chama canja, ao arroz e só ao arroz deve o nome. Neste sentido pensar em canja sem arroz é como pensar numa feijoada sem feijão.

Mas não é só por interesse académico que devemos ser fiéis à etimologia gastronómica.

Na doença, em particular nas gastroenterites e nos estados gripais, é comum da Ásia, às Américas o recurso popular à sopa de galinha, e, recentemente, há notícia de estudos científicos que corroboram as propriedades terapêuticas daquela sopa, ao estimular a imunidade, as defesas do organismo.

O arroz, por seu turno, é dos alimentos mais inócuos, mas ao mesmo tempo uma fonte energética importante, de hidratos de carbono.

Assim se juntam a fácil digestibilidade e um bom aporte proteico calórico e hídrico no que é uma receita universal, para os mais combalidos.

De qualquer forma as massas, obviamente, não devem ser usadas antes dos 7-8 meses de vida, ao contrário do arroz que pode ser introduzido na dieta do lactente, já aos 4 meses. O que só abona em favor deste cereal em termos de digestibilidade.

Mas mesmo depois daquele grupo etário o arroz, em situações de maior fragilidade orgânica continua a ser mais indicado, pois é de mais fácil digestão além de ser objectivamente obstipante (fazendo parte, com o conjunto do caldo, de um bom hidratante), útil no caso das diarreias, o que não acontece com as massas.

PS: Também, mas neste caso de forma generalizada, se chama, em Portugal, chá de cidreira a uma infusão da mesma e onde não existe qualquer vestígio da plantinha a que no dicionário deram o nome universal de chá.


Mas uma coisa é dar uma infusão de chá propriamente dito outra é dar uma infusão de cidreira, de camomila ou de limão. É por isso que o rigor não é só para enfeitar.

sábado, 17 de março de 2012

Proibido Fotografar!


Mais papistas que o papa.


Um fotógrafo amador, e falo por experiência própria, se viajar pelos países do Mediterrâneo, europeus, magrebinos e do médio oriente, pode trazer consigo, além dos inevitáveis postais, multimédia e livros turísticos, uma bela colecção de fotografias, segundo a sua visão pessoal e como fruto da alegria de fotografar.


E é com entusiasmo que difunde as imagens, por exemplo em sessões de diapositivos, junto à família e amigos, senão a uma comunidade mais alargada, dos locais que visitou, o que também ajuda a divulgar e a despertar o interesse por esses destinos turísticos.


Esse acervo fotográfico que pode contemplar a Acrópole e o respectivo museu, em Atenas, o museu de Atenas, a Mesquita Azul e a Igreja de Santa Sofia em Istambul, o museu do Cairo, Chartres, os Castelos do Loire, Carcassone, o Louvre, a mesquita de Córdoba, o Alhambra, o museu de Tunes, a Sagrada Família em Barcelona, o museu de Estrasburgo, o Teatro Museu Salvador Dali, a catedral de Albi, o museu de Sevillha, o Vaticano e quase todo o seu museu, a Pinacoteca de Munique, a Eurodisney, o Futuroscópio. . .


Mas... dificilmente, terá continuidade quando entramos em Portugal, particularmente na estação de S. Bento, com os seus painéis de azulejos, na casa-museu do fotógrafo (um parodoxo) Carlos Relvas, no Palácio de Vila Viçosa, em exposições de fotografia (outro grande parodoxo) no Centro Cultural de Belém. . .


Ao interditar o recurso, à máquina fotográfica, pelos turistas e fotógrafos amadores, estes museus e monumentos, privam aqueles, de uma legítima actividade criativa e recreativa.


Obviamente, este tipo de atitudes, para os amantes da fotografia, não deixa muitas saudades, nem cataliza entusiasmos.


Será por medo que as pessoas, depois, não comprem livros ou postais? Nada mais falso pois quem é poupado nas fotografias também é poupado noutras imagens, ao invés de quem fotografa, que, como amante e entusiasta das imagens, que é, não dispensa as ofertas turísticas e culturais a esse nível.
Será com medo que danifiquem as obras de arte? Se mesmo com o uso de flash é discutível, sem aquele não se vislumbra qual o prejuízo.


Por uma questão de segurança? Basta aos mal- intencionados comprarem um catálogo ou consultar livros mais ou menos pormenorizados para ter muita informação documental, complementar, sobre os acervos ou a arquitectura, após a visita ao eventual alvo.


A meu ver uma medida mesquinha, caprichosa e gratuita.


Se o resto dos monumentos, museus, exposições, por esse mundo fora, fosse interdito aos fotógrafos, a História dos grandes nomes da fotografia ficaria extremamente empobrecida. Felizmente que são raros os casos de interdição.


PS. Uma sugestão: Porque não cobrar uma taxa, 50 cêntimos a 1 euro, p. ex., a quem quiser tirar fotografias, à semelhança do que acontece, pontualmente, em um ou outro museu ou
monumento, em alguns países? Sempre seria um acréscimo de divisas sem qualquer custo adicional para esses museus e monumentos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Estamos em Portugal, ninguém leva a mal!



Há dias, numa entrevista radiofónica , um inglês, casado com uma portuguesa e residente no nosso país, fazia notar que uma das diferenças  em que mais tinha dificuldade em se adaptar, entre Portugal e a Inglaterra, um dos países com a taxa mais baixa de mortalidade nas estradas, seria o desleixo com que o condutor português conduz e estaciona.

Instigado pela mulher a “desenrascar-se”, numa ocasião em que havia dificuldades de estacionamento, ele levantou problemas de consciência, de cidadania, em estacionar o carro de forma irregular, já não me lembro se em cima do passeio, se junto a um cruzamento, se em via estreita, ao que os familiares lusitanos, que com ele viajavam, em uníssono soltaram um: não te preocupes estás em Portugal!

Podíamos pensar nas motos de alta cilindrada, que passam a troar os ares, impunemente com velocidades (inimagináveis no resto da Europa do Euro) e agressividade sonora interditos aos veículos de 4 rodas, nos potenciais Kamikaze rodoviários das estradas com viaturas coladas a circular a 150 Km/h e mais, na economia paralela (fuga aos impostos e à segurança social, falsos recibos verdes, fuga de capitais), e na gestão, nem sempre muito rigorosa, de muitas autarquias.



  Em Lamego existe um parque de estacionamento sui generis, brilhantemente improvisado pelos autarcas responsáveis, mas que não respeita muito o património urbano. 

Todo um passeio de uma alameda arborizada, junto à Câmara está preenchido de viaturas estacionadas, que não ficam sujeitas a multa pois resolveram a questão colocando as placas, de forma completamente insuspeita, de estacionamento privado do Munícipio. 

Entretanto muitas pessoas, desde crianças e mães a levar carrinhos de bebé, a velhinhos com bengala, insistem em usar aquele passeio tendo de se descolar, quase todo o percurso, a descer e a subir do rebordo para a sarjeta, e da sarjeta par o rebordo. 

A Câmara Municipal devia nas extremidades do ex-passeio colocar setinhas a recomendar o uso só do passeio oposto. Ao fim e ao cabo, naquela alameda, deixaram de haver dois passeios visto um deles ser agora um parque de estacionamento.

Mas em Portugal ninguém leva a mal.

Contudo, esta aparente tolerância, esta cumplicidade transversal à nossa sociedade, acaba por encobrir o que no fundo significa, o que no fundo gera: uma falta de confiança generalizada nas instituições e no outro.

Isso foi bem evidente no referendo à regionalização.

O lógico era que as pessoas votassem sim para que as regiões pudessem ter mais autonomia na gestão das suas mais valias, e responder mais adequadamente às necessidades da população, por um melhor conhecimento, por uma convivência quotidiana e pessoal com essas necessidades.

Teoricamente a regionalização teria tudo a favor, por exemplo numa região como a do Douro, a região agrícola mais auto-suficiente do país e com um turismo que tem vindo a crescer exponencialmente. 

Quem conhece melhor os problemas de uma região, quem os vive no terreno, no dia -a -dia, à partida é quem estaria mais apto a uma gestão eficaz dos recursos disponíveis (de origem fiscal, da União Europeia ou outros), mais do que aquele que tem a sua vida estabelecida em Lisboa e é sobretudo com a realidade e as solicitações da capital com quem tem de viver no seu quotidiano.

Mas, ao povo português quando lhe perguntaram se queria ser ele a assumir uma quota -parte maior nas responsabilidades do governo do país, votando sim à regionalização, de certa forma o povo viu-se ao espelho e disse não. 

Em Lisboa bem podem dizer que para lá do Marão mandam não os que lá estão mas  os que cá estão, na capital.

Os argumentos à mesa do café, a favor do não, de que eu me apercebi na altura, e que hoje ainda se ouvem, revelam falta de confiança dos locais nos conterrâneos e no poder autárquico e o certo é que a regionalização foi chumbada na maioria do país. 

Todo o orgulho regional desaparece inesperadamente.

Que razões as câmaras municipais e juntas de freguesia no geral, tem dado para essa desconfiança a ponto de os portugueses terem rejeitado a descentralização, é um assunto que mereceria um grande estudo antes de novo referendo.

Das 2 maiores cidades o Porto, com bons exemplos paradigmáticos de afirmação regional, foi uma das excepções e votou sim à regionalização, Lisboa apesar de ser na altura maioritariamente de esquerda (que defendia a regionalização) votou naturalmente não, pois quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte.

Houve na capital nortenha vozes importantes da sociedade dita civil em defesa da regionalização.

Mas o resto do país tirando, salvo erro, Évora e outra cidade provavelmente insular, não as acompanharam neste empenho, nesta paixão regional.

Em Portugal somos socialmente tolerantes, cúmplices e complacentes, com fugas aos impostos, desvarios rodoviários, comportamentos de má cidadania, pecadilhos institucionais mas que nos deixa, como povo, e no que é transversal a toda a sociedade portuguesa, seguramente com algum desconforto ligeiro e uma leve suspeita de com outra cultura social mais impregnada de responsabilidade cívica o País estaria agora bem mais tranquilo e confortável.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Ora vamos lá a ver...



Na vida de um português trabalhador assalariado cerca de 60% do que ganha, durante décadas, vai para o Estado, e, pelo menos no caso dos funcionários públicos, a fatia maior desses 60% nem a chega a ver, fica logo retida na fonte.

Por seu turno a habitação obtida com crédito bancário acaba por ficar a um custo muitíssimo maior que o seu valor inicial.

E querem agora, mais ou menos subliminarmente, os políticos ditos liberais e, recentemente, os grupos e agências da alta finança, fazerem-nos sentir culpados, por grandes gastadores que somos. Pois não sabemos fazer contas à vida e andamos a consumir para além das reais possibilidades individuais e do país.

Temos assim de estar atentos não só à nossa própria economia doméstica como aos eventuais trambolhões nacionais.

Mas a quem entregamos diretamente a fatia maior do que ganhamos, aos do governo e dos bancos e finanças, por pior que seja a sua gestão, por maior que seja o desnorte, acabam sempre por se descartarem de qualquer culpa ou responsabilidade, salvaguardando-se e aos seus interesses, até com recompensas em novos cargos, indeminizações Kafkianas, juros acrescidos e reformas acumuladas e milionárias.

Como se regressássemos a uma nova forma de feudalismo mas agora politico-bancário.

Não nos podemos esquecer do contributo do cidadão português médio no seu dia-a-dia, para o descalabro nas finanças e na economia, ou seja economia paralela, falcatrueiros que se aproveitam da boa -fé do rendimento mínimo e outros gabirus do mesmo estilo, consumismo desproporcionado, comportamento egocêntrico e individualista, laxismo, falta de civismo e de cidadania, custos astronómicos com o primado do transporte individual, imensamente agravado com os acidentes, sobre os transportes públicos. Mas é sem dúvida, e também sem parecer libertar-se daquelas características populares portuguesas, o complexo burocrático político-bancário o responsável maior pelos maus resultados, pelas oportunidades perdidas com a adesão ao Euro. Até porque se tratam de políticos que assumiram a responsabilidade de nos levar a bom porto. Mas em caso de crise dispõem de grandes iates salva-vidas e o comum dos contribuintes disputa o lugar nos botes apinhados ou é bom que seja bom nadador e com grandes reservas calóricas.

Num país onde a economia paralela tem um peso de cerca de 30% do total da nossa economia, onde provavelmente os grandes especialistas de direito fiscal e responsáveis da correspondente legislação ajudam as grandes empresas a contornar essas leis, é justamente a quem tem assegurado o grosso das receitas fiscais, a classe média no geral e o funcionário público (FP) em particular, que lhe são impostos cortes substanciais no seu salário e na sua reforma, de forma imoral senão ilegal, para ajudar os ministérios da finanças e da economia a atenuar o seu desgoverno ou o mau governo, desde a entrada do país na União Europeia.



Opção claramente ideológica


E criam um fosso entre o Funcionalismo Público e a Iniciativa Privada, com cortes de salário significativos na Função Pública, fazendo-a sentir culpada, acusando-a de privilégios quando a opção profissional pelo sector público ou pelo sector privado é livre e ambos estão sujeitos a regras de acesso, e a uma legislação que em termos de protecção e estabilidade do emprego, nos actuais moldes, pouco ou nada difere, senão veja-se o caso dos professores, havendo contudo melhores vencimentos no privado, nos cargos médios e nos mais diferenciados.

Mas para os que interiorizam que o FP faz parte de uma raça de privilegiados, e que é justo que se lhes vão cortando os salários, cortes que se encaminham para os 25% / ano, e que é de boa política ir reduzindo o peso do Estado deviam ter em conta alguns aspectos.

Quem recorre aos serviços médicos do ainda Serviço Nacional de Saúde, quem tem os seus filhos a estudar no Ensino Público, deveria pensar que quanto mais o Estado se for desvinculando destes monstros (para usar a terminologia do nosso actual 1.ª ministro) maiores serão os encargos que de futuro vai ter que suportar, ou maiores as probabilidades de não o poder fazer.

Por outro lado o comerciante, o industrial, o empresário devem-se lembrar que a classe média é inegavelmente a principal, senão a absoluta garante da paz possível, da coesão social e do desenvolvimento económico e que quanto mais se fragilizar o funcionalismo público sob o aspecto sócio- económico, mais se fragiliza aquela classe.




Mesmo quem defende um sistema liberal deve ter, certamente, em linha de conta este aspecto.

Mas têm-se visto é políticos, e de partidos frequentados por fans, em privado, dos paraísos fiscais, que defendem o liberalismo e que só são liberais (se bem que de direita conservadora) em se irem livrando das responsabilidades de um estado social, porque em impostos, pelo menos para quem os paga, já são sociais-democratas.

O subsídio de Natal foi instituído em 1973 pelo Dr. Marcelo Caetano e o 13.º mês no pós- 25 de Abril pelo general Vasco Gonçalves com o fim de atenuar as enormes diferenças em vencimentos entre Portugal e a média dos países europeus mais próximos. E mesmo assim, hoje em dia, os nossos 14 meses de salário, correspondem somente a 1/3 ou mesmo a ¼ do total salarial dos 12 meses da maioria dos países da Europa Ocidental.

Por outras palavras 12 meses de salário anual em países como a Holanda equivalem a cerca de 36 meses de salário em Portugal.

Até a Grécia e a Irlanda, nossos companheiros neste ostracismo económico-social tem salários bem mais elevados.

Aqueles subsídios não são nenhuma benesse extraordinária. Fazem parte do vencimento e contribuem minimamente para diminuir o fosso entre Portugal e aqueles países.

Ao fim de décadas de governos ditos sociais-democratas (mas inscritos no clube dos partidos liberais) e de governos socialistas, ditos do socialismo democrático, Portugal é o país europeu, com maiores desigualdades económicas e aquele em que em que os sacrifícios pedidos em nome da austeridade recaem mais sobre quem menos tem, como foi recentemente descoberto e divulgado por Bruxelas.




Mas e a Europa? O regresso à velha e boa História?

O convívio entre os povos na Europa, entre nações e impérios, foi sempre feito, em escalas diferentes, desde os primórdios da nossa civilização, a ferro e a fogo. Os acordos ou as imposições a que se chegavam entre países, nações e etnias, dominadores e subjugados, atacantes e resistentes, eram estabelecidos através das armas.

Desde o fim da 2.ª Guerra Mundial e sobretudo desde a formação da União Europeia e da moeda única que vivemos um período de paz absolutamente atípico na Europa.

Mas parece que este estranho interregno, está a chegar ao fim. Iremos provavelmente voltar ao velho e habitual rumo dos países e das nações em que as voltas e as reviravoltas da história na Europa se continuaram a fazer sob o signo dos nacionalismos mais ou menos aguerridos e de xenofobia auto alimentada. Em que os países nascem e se afirmam pela exclusão dos outros.

Se voltarmos, neste pequeno continente retalhado que mais parece uma península do vasto continente asiático (como nos era ensinado na escola), aos processos sociais político-militares, desde o Império Romano, e da Antiguidade, ao fim da 2.ª Grande Guerra, é natural que o resto do mundo nos olhe com alguma perplexidade, atendendo à escala e à mesquinhez e irracionalidade de disputas liliputianas.
Há quem diga que na Europa há políticos (de viveiro, burocraticamente standartizados) a mais e estadistas a menos, estadistas de grande envergadura, capazes de alcançar o impossível como foi o caso de uma Europa sem fronteiras e sem guerras e agora com uma moeda única.

De qualquer forma se a União Europeia não avançar para uma forma de federalismo, pelo menos para um governo económico, com uma política fiscal (e social) comum, entraremos muito provavelmente num processo de desagregação, num retrocesso civilizacional com cenários inimagináveis de colapso do mundo que conhecemos nas últimas décadas.




quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Hiperactividade e Défice de Atenção




Todas as crianças sempre foram, são e serão hiperactivas, relativamente aos grupos etários posteriores, passe a redundância.
Mesmo as que aparentam mais contenção, assim que surjam as condições propícias é ver como toda a forma de energia, própria destes grupos etários, salta cá para fora.


Dentro da hiperactividade infantil, sempre houve crianças cuja actividade se tornava mais perturbadora, chamando-se a essas irrequietas (ou que tinham os bichinhos carpinteiros), adjectivo que desapareceu misteriosamente do léxico usado para caracterizar o comportamento infantil. 


E quando essa irrequietude começava a traduzir-se por prejuízos e acidentes próximos do exasperante, utilizava- se outro termo que também parece ter caído em desuso: traquina, criança traquina.
Os adjectivos  irrequieto e traquina além de serem em termos absolutos, mais adequados, para descrever um comportamento, não trazem consigo a conotação de distúrbio comportamental,  de patologia,  como acontece com os adjectivos hipercinético e hiperactivo. 


Por seu turno o agora pomposamente chamado défice de atenção foi sempre comum na criança que se dizia estar com a cabeça na Lua, ou ganhava o epiteto de cabeça no ar. Só que o ambiente de disciplina na escola era bem diferente e os professores optavam, e tinham condições para isso, por um controlo apertado chamando continuamente à terra os que andavam a vogar pelo espaço. Desta forma não se notava tanto o problema do dito défice, aliás ainda nem se falava dele e, pelo menos em Portugal, ainda não estava na moda.


À parte o comportamento  desajustada e desproporcionadamente agressivo de alguns professores que, de forma merecida, foi condenado e erradicado, no geral era muito mais fácil manter os alunos com atenção, até porque pais e educadores tinham uma imagem, junto às crianças, de outra grandeza, mais de acordo com uma real e indispensável hierarquia biológica e social da experiência e da maturidade, imagem que acabaria por se tornar mais prosaica e acessível.





De qualquer forma, em poucas dezenas de anos a natural cinésia da infância, e os desvios de atenção nas aulas passaram a ser rotuladas como doenças a necessitar, a rogo dos pais e professores, de consultas de Psicologia e Pediatria e até de Psiquiatria, e do recurso a psicotrópicos que merecem receitas especiais.

Como se este período do crescimento, com uma cinésia e uma entropia muito próprias e que se irão perdendo inelutavelmente, em termos biológicos, ao longo da vida, para dar lugar ao processo progressivo de maturação cognitivo-comportamental (mais educação, mais ponderação e contenção, mais organização e mais ordem) se caracterizasse, nos dias de hoje, por desvios de carácter, em casa e na escola, a necessitarem de atenção clínica e apoio medicamentoso.


O que na verdade se tem passado é que para além da eterna irrequietude infantil esta está bastante mais liberta de condicionamentos repressivos e disciplinadores, pelo que extravasa despreocupadamente sem peso nem medida, e passou a ser hipervalorizada.


Em termos meramente formativos, na década de 50, do Século XX, uma criança de 6 anos, apenas com um único livro escolar para toda a matéria, com um lápis, uma borracha e uma caneta, numa pequena caixinha de madeira, e em que a máquina de calcular era o seu cérebro, sem precisar de ser sobredotada (outro adjectivo pomposo muito em voga), já fazia, na 1.ª classe, contas de dividir.

Nos dias de hoje ficamos embaraçados e constrangidos ao ver jovens licenciados de 25 anos que não sabem responder ao quantos são 8x4 e que localizam mentalmente o Everest nos Pirinéus.
Desde meados do século XX, depois da 2.ª Grande Guerra, iniciou-se na Europa e nos EUA um processo de contestação dos valores morais e familiares dominantes e das formas tradicionais, familiares e escolares, de educar os mais novos.


Para além disso, e também como consequência disso, a apoteose humana das sociedades de consumo, a mudança nos hábitos de vida na família e na sociedade, com a emancipação da mulher, as famílias monoparentais, a subida exponencial do número de divórcios em proporção inversa com o número de casamentos, e, em nome da modernidade, o advento dos multimédia, a desinibição crescente nos comportamentos e atitudes, quer na família quer na sociedade, cada vez com menos rédeas e mais desregrada, o espectro que se vai alargando de opções lúdicas com acesso livre dos mais jovens a todo o tipo de conteúdos quer nos jogos de computador, quer na net ou na televisão, a invasão dos fast-food e junk-food, acompanharam aquele processo de contestação e fizeram parte dele.


Neste contexto, parece-me óbvio que tem havido uma conjugação de factores ambientais, alimentares, educacionais e lúdicos que moldaram os comportamentos infantil e juvenil mais como catalisadores energéticos, destruturantes, e agora em espaços muito mais confinados, do que como agentes formativos e estabilizadores. (1)


Da sala de brincar, da rua, do jardim e do quintal, mesmo do pinhal, dos baloiços e dos escorregas, as crianças passaram a frequentar a alcatifa da sala de estar, espaço compartilhado e disputado com os mais velhos, com prejuízo mútuo das actividades e vivências próprias de cada grupo etário.


A energia da infância continua lá e se não se liberta numa corrida de triciclos ou num jogo às escondidinhas acaba por dar notícia da sua existência de formas bem mais perturbadoras, dentro das quatro paredes.


A criança, nas sociedades em que estamos integrados, deixou, dentro do seio familiar, muito do seu nicho próprio, mais individualizado, com uma outra dimensão muito sua, e passou a ter um papel mais activo no convívio com os adultos como o entretém maior, como compincha em miniatura, como o leitmotiv dominante nos assuntos do dia, dentro e até fora de casa. Em consequência até é descurado de forma mais ou menos inocente um repouso adequado, com as indispensáveis horas de sono, havendo casais que só não levam os seus filhos pequenos para a discoteca porque lhes interditariam a entrada (2).


A partir do momento em que a criança é eleita como o rei ou a rainha da festa, como o centro das atenções, todos os dias, onde quer que esteja, quer na intimidade do lar quer em ambiente de convívio alargado a outros familiares, amigos, colegas e até em encontros de ordem meramente profissional, fará os possíveis por reivindicar esse estatuto, sobretudo quando se vê esquecida, procurando chamar e monopolizar todas as atenções com as armas de que dispõe a nível cinético e afectivo.


Por outro lado praticamente desde que nasce é com frequência sujeita, via TV, a um bombardeamento diário de milhões de imagens a velocidades desmesuradas para um pequeno cérebro, em período critico, de estruturação cerebral, e ainda sem capacidades para processar esta vaga de informação, televisão que compete com as formas mais adequadas de condicionar a maturação cerebral, TV a que mais tarde, ainda na infância claro, se associam os jogos da PlayStation e dos computadores. (3)



Não só não sedimentam conhecimentos (ao contrário dos livros, do teatro e dos filmes vistos em idades apropriadas, dos jogos de tabuleiro onde se socializa e desenvolve a linguagem com o diálogo a que obrigam, e se aprende a interpretar códigos de conduta e de convívio) como originam comportamento agressivo, problemas de atenção, obesidade e falta de horas de sono.

A indústria alimentar, por seu turno, perversamente dirigida ao público infantil, conquistando-o e moldando-lhe os gostos, com uma sobrecarga de até 80% em açúcar e chocolate nos cereais, que ainda oferecem brinquedos, e com a cafeína de alguns refrigerantes será outro dos factores a ter em conta no campo da hiperactividade infantil.











O desenvolvimento do ser humano tem várias fases, grosso modo 1.º ano de vida, 1.ª e 2ª infâncias, pré adolescência e adolescência, adulto jovem, adulto, meia- idade e idoso, fases com características muito particulares e vincadas, características que não são só culturais e sociais, com que habitualmente se explica, por exemplo, o comportamento egocentrista e contestatário dos adolescentes, mas básicamente biológicas. Ao olhar para uma criança ou um adolescente, um adulto tem de os encarar como seres também humanos mas em tempos biológicos diferentes. Os neurónios dos lobos frontais, responsáveis pela socialização, planeamento e inibição só ficam completamente formados aos 21 anos.(4)

Uma criança não é um adulto em miniatura. Forçar as relações como se o fora, acaba em prejuízo para ela própria e para um salutar convívio intergeracional e intrageracional. 


Se na segunda infância tem potencialidades para o cálculo mental que se não forem desenvolvidas nessa altura acabarão por se perder, ainda lhe faltam muitos anos para abrandar, por si só, o seu potencial hipercinético relativo, e obrigar-se a concentrar no que diz o professor, e nos livros. A abordagem escolar, para ser realmente eficaz, terá de ser feita atendendo às particularidades da infância, por um lado em termos de aproveitamento das capacidades de plasticidade mental irrepetíveis, por outro para a necessidade de disciplinar o comportamento. 


E isto não vai mudar por mais soluções luminosas, pretensamente progressistas e libertárias, e sobretudo politicamente correctas, que se sucedam no Ministério da Educação, com os resultados à vista, ou por muito que se queiram justificar os incómodos causados por se ter passado do 8 para 80 na permissividade, e na passividade com que lidamos com o comportamento infantil, rotulando-o com adjectivos mais apropriados a perturbações patológias da mente.



(1) Englobadas também por estas mudanças libertárias, em nome da modernidade, nos códigos de valores da família e da sociedade, na deusificação do consumo, mas como que vivendo em universos paralelos à burguesia (à classe média, à média alta, e até à pequena burguesia) temos as realidades bem diferentes dos bairros sociais, e dos bairros clandestinos, fonte permanente de marginalidade de crime, de exclusão. Mas aqui também estas mudanças parecem constituir mais um factor de instabilidade social do que de civilidade.


 (2) Como pediatra pude observar uma pequenina de 4 anos, com herpes peribucal singularmente exuberante, sinal seguro de diminuição das resistências do corpo e da mente, quebra do estado geral notória, aspecto franzino, com olhos encovados e uma pneumonia declarada.
Quando recomendei ao pai para a pôr cedo na cama, nem era muito cedo (20h), ele ficou muito espantado a olhar para mim e respondeu-me que isso era difícil porque ela está habituada a ficar com os irmãos mais velhos, até tarde (…), a jogar play-station.


(3) Os primeiros 10 anos constituem uma fase irrepetível de produção de sinapses nervosas e vias neuronais, fase em que a plasticidade nas conexões e estrutura neuronal necessitam, mais que em qualquer outra altura da vida, de condições as mais adequadas possíveis para uma plena maturação. 


(4) Por assim dizer, antes dos 18-21 anos, o córtex pré-frontal é imaturo, subdesenvolvido, tem diminuição relativa do controle dos impulsos, do juízo, da avaliação.

A percepção, o conceito que temos da dimensão do tempo também varia com a idade e a correspondente cinésia, própria de cada grupo etário ou seja quanto maior for a energia cinética ou mesmo a entropia que geramos, mais dilatado se torna o espaço de tempo de que dispomos, em termos de noção, e expectativa.



E aqui, mais uma vez não se trata de uma questão social, cultural ou educacional mas biológica, ou melhor, cronobiológica.
Lembro-me de uma vez, em que fui com a minha filha adolescente ao Cinema, dentro de um grande centro comercial (como há poucos por essa Europa fora, aliás), com muitas montras, cafés, livrarias, termos chegado 30 minutos mais cedo. Ela vira-se para mim, com preocupação e algum pânico expressos com um o que é que vamos agora fazer neste tempo todo que falta?


Numa entrevista radiofónica a um emigrante português no Japão, provavelmente na casa dos vinte e tais, este para caracterizar as diferenças de idade, com outros colegas, recorreu à seguinte descrição: eles que têm muitos mais anos (que eu), trinta e tais, quarenta anos (…).


Na verdade para um individuo mais velho, de 60 anos por exemplo, o espaço de tempo que medeia entre ele e um adulto jovem de 20 anos é percepcionado como sendo mais curto que o mesmo espaço de tempo percepcionado pelo jovem, que o encara como ainda muito longínquo.


Para uma criança um dia corresponde perceptívelmente a um período de tempo maior do que para um adulto jovem e muito maior do que para um idoso. E se já há essa diferença circadiana, então quando se fala em meses, para essa criança, isso quase equivale a falar em anos para um adulto. 



Quanto maior a energia cinética mais o tempo se dilata.


Em suma há diferenças marcantes na perspectiva que temos da realidade, em termos de variações cronobiologicas, sendo a dimensão dos espaços de tempo inversamente proporcional à idade e directamente proporcional à quantidade de energia cinética característica de cada grupo etário.







segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Visita a Israel







Israel, fundado em meados do século XX, é um dos Estados mais jovens, mas ao mesmo tempo é como se tivéssemos assistido ao fim de um longo interregno desde a Antiguidade, e que toda a riqueza da história e da cultura hebraica voltassem a ter uma pátria própria.

Torna-se uma viagem que nos marca, em termos de religião e história, ou não estivéssemos no berço da nossa civilização judaico-cristã e mesmo do islamismo e nos ajuda a perceber a realidade político e social dos nossos dias no que respeita ao convívio entre os povos locais.

A fundação deste pequeno Estado, contra todos os países árabes envolventes, sobretudo o Egipto, imensamente maiores, e contra a Inglaterra, com o seu Mandato colonial, que chegou a reter em campos de concentração milhares de judeus sobreviventes do Holocausto e que queriam emigrar para Israel, teve as suas origens, não só em termos de escolha histórica mas de resposta a séculos de perseguições e genocídio do povo judeu, em toda a Europa, ressalvando-se países como a Holanda, que realmente se destaca em termos de inteligência política e social neste campo, a Bulgária, a leste, onde o monarca se recusou a obedecer às ordens de Hitler de deportação daquele povo, e um ou outro país com um anti -semitismo mais mitigado.

Um historiador disse que a história deste povo na Europa, desde a idade média, se passou em 3 fases sucessivas: tens de te converter, tens que te ir embora, não podes existir.

                  Antes da invasão e da ocupação da Polónia pelos nazis, muita da população polaca com a conivência das autoridades quando não por iniciativa destas próprias, moviam perseguições aos judeus, a maioria residente em aldeias, com destruição ou ocupação de casas e apropriação de bens, e onde não faltavam sevícias, com frequência mortais, àquele povo, de forma cruel e de má-fé.

Durante a 2.ª Guerra, quando os Judeus de toda a Europa eram levados de comboio, em vagões de gado em condições dantescas inimagináveis, para os campos de concentração, muitos polacos, segundo um sobrevivente, cerca de 90%, ao longo da via-férrea, respondiam com ditos jocosos e gargalhadas, bem- humorados por finalmente alguém os livrar dos judeus, aos seus gritos lancinantes.

                  No fim da 2.ª Grande Guerra, numa localidade polaca, uma criança de cerca de 8 anos, teria dito aos pais, seguindo uma tradição de denúncias e queixas que já vinha da época medieval, que um grupo de Judeus, o teriam raptado. Tratava-se de um grupo de recém-libertados de um campo de concentração e que se encontravam refugiados numa casa comum, porque as suas próprias casas já tinham sido entretanto ocupadas e por quem não as iria devolver aos legítimos donos.

                  Como resultado da queixa foram chacinados pela população local, com o beneplácito da polícia e do exército.

                  Na Ucrânia, no fim da 1.ª Guerra Mundial, foram mortos 100.000 judeus e na Lituânia, após a ocupação pelos nazis, estes só tiveram que assistir, sem gastar munições ou recursos humanos, à matança dos judeus (80%) pela população local estando em voga o espancamento, até à morte, com barras de ferro.
                  
Em todos os países a leste da Alemanha, com grandes comunidades judaicas, sendo de longe as maiores as da Polónia e da Rússia, o panorama antes da invasão nazi (e mesmo depois) pautava-se, no geral por um anti-semitismo generalizado  e ciclíco, quer se tratassem de judeus pobres, a maioria, quer se tratassem de burgueses, quer fossem ortodoxos, quer fossem laicos e assimilados, e até se pode testemunhar, de forma abertamente anti cosmopolita e xenófoba, a existência de um anti-semitismo sem semitas.

Desde os violentos, maciços e destrutivos progroms russos, aos campos de concentração do III Reich e seus satélites, o destino da maioria dos judeus seria o seu extermínio.

Mesmo no último ano da guerra, quando esta já estava definitivamente perdida para as potências do eixo, na Hungria, gerou-se uma sanha de perseguição aos judeus sobreviventes, para abater o maior número possível, antes que Exército Vermelho entrasse no país.



Entretanto continuam a haver mitos, acusações fantasiosas, lendas maldosas e mentiras, factos estratégica e convenientemente desconhecidos ou deturpados, ou documentos e histórias forjadas, como o dos fantasmagóricos Protocolos dos Sábios de Sião, que vão sendo achas na grande fogueira de um permanente anti -semitismo, mas aos quais se deverão contrapor análises objectivas, racionais, realistas e de boa-fé.

Um bom exemplo dos argumentos fantasiosos e delirantes anti-semitas é que como dos Judeus nada poderia vir de criativo, os profetas bíblicos, o Rei David e o próprio Jesus Cristo longe de serem judeus só poderiam ser da raça germânica. Ideias como esta de um inglês, Houston Stewart  Chamberlain, genro de Richard Wagner e que viria a ser amigo e, salvo erro, mentor de Hitler, foram aclamadas na Alemanha.

Mas, há outos factores na génese do anti-semitismo como, e chamemos às coisas pelos nomes, a inveja, a cobiça, a ganância de quem via com bons olhos, na deportação em massa do Judeus, uma maneira de ficar com as suas casas e muitos dos seus haveres. Houve povoados ou bairros inteiros que mudaram, desta forma, de donos. E nunca mais foram devolvidos aos seus legítimos proprietários, mesmo quando os poucos sobreviventes dos campos queriam regressar às suas terras e aos seus bens. Era-lhes fechada a porta na cara com toda a violência, pelos ursupadores.

Ora desde há mais de 100 anos que começou a haver um retorno dos judeus aos territórios que constituíam a sua antiga nação. Assim começaram a instaurar-se, com a chegada dos primeiros colonos e depois com a implantação dos kibutzim, comunidades já mais evoluídas, os alicerces do que viria a ser a pátria renascida dos povos de Judá e de Israel e onde passaram a procurar refúgio, e uma nova vida, muitos, senão a maioria, dos hebreus sobreviventes à barbárie europeia.
 A importância da Civilização Judaica no Mundo é imensa.

A crença religiosa, a filosofia de vida e as regras sociais preconizadas, de um pequeno povo nómada, essencialmente de pastores, numa região em que o deserto domina, viriam a mudar por completo a poderosa sociedade romana que os tinha conquistado e posto fim à sua nação, e a moldar, nos séculos vindouros, toda a sociedade europeia. E, mais tarde, o Império Árabe, saído do Islamismo com origem, por seu turno, no Antigo Testamento fruto da nação Judaica, viria a tornar-se, juntamente com a civilização greco-romana, num dos pilares da nossa sociedade.

                  Na viagem à pátria terrena de Jesus Cristo, o Judeu mais famoso, mais que Einstein ou Steven Spielberg, outros judeus famosos, compreendemos melhor a história antiga e actual deste povo, que tem de conviver com a ultra ortodoxia suicidária de muitos dos seus e a jihad islâmica, sendo sobretudo esta, obviamente, a principal ameaça.

                  Mas voltando à nossa visita a Israel.

                  O nome Palestina é de origem latina, não árabe nem judaica, é criação de Roma para acabar com o estado de Judá (Judeia), após a revolta dos judeus contra a ocupação romana, e para os castigar e expropriar.

Nos nossos dias, na fortaleza mandada construir por Herodes, em Massada, junto ao Mar Morto, podemos observar os vestígios de uma nação inicialmente tolerada pelos ocupantes romanos, mas que, ao primeiro sinal de revolta dos judeus, acabaria por ser aniquilada.

Podemos ainda encontrar na importante e central história deste povo, Jericó como o primeiro castelo do mundo que no essencial nada difere dos castelos construídos posteriormente, e o complexo urbano de Jerusalém com o grandioso templo também mandado erigir pelo rei Herodes, que no seu reinado conseguiu viver em paz com os romanos.

                  Após muitos séculos, só se voltaria a falar na Palestina, já no século XX e muito convenientemente, por aqueles que se opunham ao retorno dos judeus àquele território.

                  Os habitantes da região chamada Palestina eram párias, estagnados desde há séculos no obscurantismo, na ignorância e nos meios mais rudimentares de sobrevivência, perseguidos pelos países vizinhos que não os aceitavam (na Síria foram mortos aos milhares), até que começaram a chegar as primeiras vagas de judeus, tendo finalmente sido constituído o estado de Israel, em 1948. A partir deste período todos se começaram a preocupar com os ditos palestinos.

            Para ilustrar esta má- fé dos países árabes vizinhos Israel teria em determinada altura oferecido a faixa de Gaza ao Egipto, mas tal era a miséria, e, provavelmente, com a promessa de um acréscimo tão grande de problemas, que os egípcios teriam recusado.

De qualquer modo assumindo então a administração desse território, os israelitas criaram para os habitantes de Gaza hospitais e escolas (donde são lançados mísseis para os povoamentos judaicos), postos de trabalho, saneamento.

 Se o Egipto não tomou conta das populações de Gaza, em termos de desenvolvimento económico e social, enviou-lhes Yasser Arafat, que era egípcio aliás, como egípcios eram os pilotos suicidas do 11 de Setembro, para as sublevar contra os que realmente lhes estavam a criar e a dar infra-estruturas na saúde, no ensino e na economia.

                  Aliás o ressentimento árabe em relação aos judeus já vem de uma época anterior à criação do Estado de Israel, desde que, em finais do século XIX, os primeiros colonos começaram a aproveitar os terrenos comprados na Palestina, com uma eficiência e produtividade, em termos agrícolas, estranhas às populações árabes vizinhas.

                  Israel constitui cerca de 0,03% de todo o território do próximo oriente, sendo a maior parte deserto. Contudo os trabalhadores árabes, locais e de outros países, fazem bicha para ir trabalhar em Israel, nos diferentes sectores da indústria, turismo, serviços e comércio, que os israelitas criaram. Não vão para a Síria, para o Egipto, nem para a Jordânia ou para a Turquia, países com um território imensamente superior. Mesmo sujeitos a viver em urbanizações, separados por muros e arame farpado da tentação terrorista-suicidária.

Trata-se, para o turista, de um país seguro civilizado, organizado e acolhedor, onde para além da Cultura e História oferece uma gastronomia verdadeiramente mediterrânica e muito variada, e que nos deixa uma marca indelével de simpatia por aquele povo que persiste em afirmar a cultura da democracia, do trabalho e do progresso contra todo obscurantismo, europeu e, mais recentemente, árabe, que sempre o perseguiu.

Bibliografia
Martin  Gilbert, Israel, 1998, edições 70 Abril de 2009.
Trond Berg Eriksen, Hakon Haket, Einhart Lorenz, História do Anti-Semitismo, 2009, Edições 70  2010
Mucznic, Esther, Portugueses no Holocausto, Esfera dos Livros, 2012.
Wilson A.N., A Filha de Hitler, Bertrand Editora, 2008.


Filmografia
Lanzmann, Claude, Shoa 1985 Divisa 2011